Carta Nº 1 / Aprendizado e método
Abril 2021
Aprendizado, expertise e prática deliberada aplicada a investimentos
O que diferencia o investidor que evolui é método, disciplina e feedback recorrente — não atalhos.
Antonio Bruno Alves
São Paulo, 28 de abril de 2021
7 min de leitura
Meus caros,
Essa semana o Primo Rico lançou sua plataforma de educação financeira, o Finclass — com aulas de profissionais e educadores sobre o mundo dos investimentos. Com assinatura de R 39,90/mês, o investidor acessa vídeos bem produzidos de cerca de dez minutos sobre o cotidiano de quem aplica. As comparações com o Masterclass americano e o Netflix são justas.
Acompanho o trabalho do Thiago Nigro com admiração. Primeiro porque ele, assim como eu, tem uma proposta diferente de assessoria: vê o mercado como um lugar onde o cliente precisa estar preparado e ser preparado para estar. Autonomia e consciência ao investidor, sempre. O caso do Nigro é claro nesse sentido — ao longo dos anos, conduziu iniciativas coerentes com essa visão: carteira pública, podcasts, livros de educação financeira e a promoção da Rico, corretora da qual é sócio, com proposta de empoderar o cliente para tomar suas próprias decisões.
A iniciativa é louvável e deve contribuir para melhorar o perfil do investidor brasileiro — que hoje ainda é, com frequência, rotulado como "trader", "sonhador" ou "apostador" — além de promover maior consciência na tomada de decisões.
Qualquer simplificação no mercado financeiro, qualquer atalho para chegar ao nível de investidores profissionais, é algo apressado e traiçoeiro.
O problema com as plataformas de atalho
Não estou criticando o Finclass ou o Thiago Nigro diretamente. Estou falando de como o investidor enfrenta um serviço como esse — e das expectativas que deposita nele.
Desconheço alguém com pretensões de trabalhar com saúde assistindo apenas séries e documentários do Netflix. Potenciais advogados também não se formam assim. O Netflix é uma plataforma — por definição, veicula diferentes negócios para diferentes clientes. No Finclass é a mesma coisa: gestores de recursos, professores, educadores financeiros, cada um com seu produto e seu respectivo público. A mensalidade do assinante é apenas uma das linhas de receita do negócio.
O Finclass foi muito feliz em endereçar a "dor" do investidor iniciante de não saber por onde começar. Mas meu foco aqui é outro: o que está ausente dessas plataformas, e por quê isso importa.
Lembro de cursos de valuation de parceiros da Nômeno, além de investidores como Cássio Hungria — médico de formação que estuda o mercado por conta própria e demonstra performance consistente frente a gestores profissionais, investindo com base no senso comum e na disciplina de John C. Bogle. Não aparecem lá. Também não aparecem gestoras como Trígono ou Invexa, com histórico de retornos expressivos em anos turbulentos para o Brasil. As tribos do mercado financeiro têm suas razões para aparecer onde aparecem.
O método: prática deliberada como forma de aprender
Sempre me interessei pela questão talento versus esforço. Enfrentei dificuldades ao ingressar numa faculdade de engenharia e sentir a dor de ter que recuperar em quatro meses tudo que não aprendi ao longo da vida. Recorri às lições de Bárbara Oakley, autora do curso "Aprendendo a Aprender", e depois ao relato de Joshua Waitzkin em "A Arte de Aprender" — onde ele narra como transitou do xadrez profissional para as artes marciais com o mesmo método. Tim Ferriss veio depois, sintetizando anos de discussão sobre aprendizado eficiente.
O que importa mesmo para aprender qualquer coisa é prática deliberada: método, disciplina, esforço, objetivo e feedback recorrente. No mercado financeiro, o próprio mercado fornece o feedback, todos os dias, na cotação e na variação da sua carteira.
Prática deliberada também significa fazer coisas que você não quer fazer. Waitzkin adorava partidas rápidas de xadrez e não suportava fazer anotações de movimentos ou estudar jogos históricos. Mas seu tutor reforçava, com método e no momento certo, a necessidade desses exercícios pouco nobres. No mercado financeiro é a mesma coisa:
- Leitura e acompanhamento de relatórios para avaliação de empresas (valuation) é fundamental — e demanda tempo para ser absorvida.
- Contabilidade de investimentos — mensuração de preço médio de ativos, controle de entradas e saídas com implicações no patrimônio — são atividades pouco nobres, porém indispensáveis.
- Estudar análise gráfica e "day trading", ainda que de forma crítica, faz parte da formação: é preciso conhecer para avaliar.
Faz parte da formação do investidor aprender de forma constante e solidificar suas estruturas de decisão.
Implicações práticas
Volto a dizer: não critico o Finclass nem qualquer produto que venha para facilitar o acesso ao conhecimento sobre mercado financeiro. Espero, inclusive, que clientes que assinam essas plataformas reconheçam ali muito do que tratamos em nossas conversas pela Nômeno.
O ponto é outro: a arena de verdade é o mercado financeiro em si. Não há atalho que substitua o tempo de exposição, a leitura persistente, o erro bem anotado e a revisão honesta de decisões. Plataformas são pontos de partida — e um bom assessor deve ajudar o cliente a entender exatamente isso.
A formação do investidor, como qualquer formação que vale alguma coisa, exige prática deliberada. O mercado financeiro, com toda sua volatilidade, é o campo de teste real. E é nesse campo que estamos juntos.
Antonio Bruno Alves
Nômeno
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